Carta à 2016

Gênova, Itália, 31 de dezembro de 2015. 

Olá meu querido 2016,

Você está chegando e eu quero te receber de braços e coração abertos para que você sinta que tem morada dentro de mim. Essa carta é para te dar boas-vindas. 

Tenho esperado pela sua chegada desde sempre, pois é sob seu domínio que completarei 30 anos de vida e desde que me conheço, tenho a sensação de que será uma bela etapa da minha vida. 

Mas já vou te alertar que antes de você, amei muitos outros. Você não será o único, mas será muito importante. Aliás, amei profundamente todos que vieram antes de você, mas você me entende, né? Não precisamos ter exclusividade, isso é coisa que eu pensava lá pelos anos 90. Hoje já sei que quanto mais amores eu tive e mais relacionamentos anteriores eu vivi, mas eu aprendi e melhor estou para ser toda sua, por um período, que sim, vai se acabar. Mas suas marcas me acompanharão para sempre. Estou deixando claro que começaremos já rumando ao fim, mas que teremos uma longa e prazeirosa jornada. Vamos viver o tempo que temos juntos e depois seguimos com nossas memórias. 

Ah meu 2016, fico imaginando que histórias nos aguardam, que lugares vamos visitar, que lições vamos aprender juntos, o que ganharemos e o que perderemos, quem vamos conhecer e de quem vamos nos despedir. Mas a verdade é que essas aspirações são breves, porque aprendi com meu amado 2015 que viver o presente é o melhor modus operandi. 

Antes de você, conheci a dor e a delícia de muitos anos passados e me libertei de muita coisa que não quero que você saiba sobre mim. Não quero que você me veja fumando ou comendo carne e muito menos ficando ansiosa por problemas que nunca chegarão durante seu calendário. Nem nunca. 

Para te receber, aprendi a desapegar de coisas materiais e excessos e quando você chegar tenho apenas uma mala para despacharmos. Estou leve para que você me preencha com coisas que não faço ideia quais são, mas que sei que serão as necessárias.

Antes de você chegar tive um ano de muita mudança física, mental, espiritual. Mudei de casa, de cabelo, de país e de consciência e quando você bater a porta vou te receber sendo outra pessoa de quando 2015 veio, mas mais próxima do que nunca da minha verdadeira essência. Você terá orgulho de quem estou me tornando e espero que se apaixone por mim, pois eu, aprendi a me amar pra caralho. E nos seus primeiros segundos quero já te dizer de antemão que sou grata por tudo o que você ainda nem me trouxe. Porque definitivamente a gratidão foi o maior aprendizado que as visitas de anos anteriores deixaram. 

O ano que estava aqui antes de você não foi fácil pro meu país e pro meu mundo, por isso você vai ter uma bagunça pra lidar quando as festas acabarem, mas sei que você trará muita coragem praqueles que estiverem dispostos a fazer de você um ano e tanto. E eu estou. 

Sei que você será gentil se eu for gentil com você, sei que você será abundante se eu for abundante, sei que você será glorioso se eu estiver disposta a encarar algumas batalhas. E sei que você vai me premiar mesmo nas trincheiras em que eu sangrar e perder. Afinal a sua generosidade é infinita e confio que você me dará tudo o que eu pedir, por isso vou ter muito cuidado e carinho ao te pedir coisas. 

Teremos 365 dias, 4 estações e muitos fatos imprevisíveis para nos conhecermos melhor na alegria e na tristeza e por isso estou tranquila de fazer tudo com bastante calma. Teremos bastante tempo para tentarmos e errarmos na nossa convivência e fazermos dela a melhor possível. E sei sim que vamos nos detestar alguns dias, mas teremos tantos outros para fazer as pazes e lutar para termos um relacionamento saudável. 

Sei que você vai chegar devagar, dia a após dia e que cada minuto seu aqui será muito importante. Por isso espero aproveitar ao máximo todos os momentos da sua companhia e quando seu sucessor chegar, que você me deixe nos braços dele, um pouco melhor do que eu era quando nos conhecemos. 

Mas apesar de estar dizendo tudo isso, não tenho grandes expectativas não. Te amo muito sim, incondicionalmente, mas não espero nada de você. Deixei essa mania idiota de querer tudo e de controlar tudo lá com 2015. Por isso, acho que vamos nos dar muito bem. 

 

Atenciosamente, 

Carla Regina Cortegoso