Sentido

Tem uma coisa que acontece eventualmente na sua vida quando você faz terapia: é chegada a hora em que você chega lá na sala de espera e não sabe o que vai falar.

Eu experimentei essa sensação algumas vezes. Mais do que gostaria de admitir. 

Mas eu nunca tinha experimentado essa sensação pra escrever.

E esse dia chegou. Eu precisava escrever, já tava na hora de um post, já tava sofrendo por dentro de algo inexplicável que precisava sair e eu não sabia por onde começar. 

E como as melhores conclusões que cheguei no divã, foram partindo da fala daquilo que vinha primeiro à cabeça, vou arrastar uma lição de um lugar ao outro e aplicar à esse post o mesmo que funciona na análise.

Afinal, escrever é a pior terapia.

E a pior terapia é a melhor.

Então vou começar a falar, falar, falar. Como vier. 

Escrever na verdade.

...

Parei pra acender o cigarro, logo começo a viajar com a fumaça, impesteando o lugar, sem me preocupar com as pessoas em volta. As pessoas imaginárias das minhas memórias que estão sentadas comigo na sala de espera o tempo todo. 

Se houvesse lei anti-fumo na mente, eu estaria enquadrada. Mas minha punição mesmo vem dos avisos pregados nas paredes do meu estômago. Essa queimação que não passa.

Vim escrever na casa da minha mãe, mudar a paisagem as vezes muda dentro da gente o que vai sair pra fora.

Mas a janela ainda tá fechada.

Não importa quanto sol fizer, é dentro que faz escuro.

Que dá medo.

Quando a luz do sol manda um raiozinho pra iluminar alguma escuridão dentro de mim, eu aplaudo, igual a galera faz no Arpoador.

Sei lá, eu tenho uma grande facilidade ou vontade pra encontrar conexões entre as coisas. Eu tinha que fazer isso para ganhar meu sustento, já que publicidade nada mais é, do que juntar e explicar uma coisa nada a ver com outra menos a ver ainda. E ainda sim a ideia funcionar.

Então me perdoa se eu estiver comparando vegano com o bife do Fasano, mas é porque eu acho que tá tudo assim, ligadão mesmo. Tem que estar. 

Quanto mais é dia, mais coisas a gente consegue enxergar na estrada, na praia, e menos opção tem de ignorar.

As vezes o saber é o sabor da prisão, mas fique tranquilo, tem coisas que você só aprende na cadeia, como possivelmente, apanhar.

E um soco vem cheio de lição.

E as vezes é a vida quem bate.

É aquele que você mais ama. 

Outro cigarro.

De novo viajo.

Volto a escrever e a coisa vai se fundindo assim, ócio, tédio, alegria, inspiração, obrigação, vontade, tudo isso vira texto.

Ou mágoa.

Melhor falar, fazer, escrever, gritar, dançar, cantar, beijar, explodir, acalmar do que ficar parada. 

Mó merda ficar parada quando o mundo não para de girar.

É meio como estar muito bêbado deitado na cama.

Prefiro vomitar, sempre.

Por pra fora, expurgar, puncionar, sangrar, expor, cagar.

Discorda?

Se me der corda eu vou longe aqui, ainda com medo de não fazer sentido.

Sentido, general.

Senti tudo isso que tá colocado aqui.

Foi com os sentidos que sairam.

Não em forma de bosta e sim em forma de arte, que seja, não acha? Arte é mesmo controversa.

E não me lembro de alguém dizer que ela precisa fazer sentido.

...

Obrigada a você que leu até aqui, você me ajudou. Porque eu descobri hoje de manhã, que eu tenho muito medo do que eu não consigo explicar. Desde uma ideia sem pé nem cabeça, até um argumento mal feito, uma visão ou um sonho. Principalmente um texto. E isso está me impedindo de fazer loucuras maravilhosas. Então esse texto é uma catarse que me liberta de ter que fazer sentido sempre.

...

E eu revisei umas três vezes ainda, apagando possíveis ideias idiotas e frases mal feitas, mas eu chego lá.

Dei o primeiro passo.

Em praça pública.