Abusado e Rota 66

Capa do livro Rota 66 de Caco Barcellos

Capa do livro Rota 66 de Caco Barcellos

Cuidado, spoilers de livros que provavelmente você não vai ler.

Dois livros que marcaram minha vida e me deram visões que uso hoje para entender o mundo são: ‘Rota 66, a História da Polícia que Matae ‘Abusado, o Dono do Morro Dona Marta’ ambos do Caco Barcellos.

Livros servem para abrir as portas de mundos que não o meu.

Para escrever Rota 66, Caco passou anos dentro do Instituto Médico Legal coletando informações sobre mortos em conflito envolvendo as Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a ROTA - a polícia militarizada criada por Paulo Maluf em São Paulo nos anos 90.

No IML descobriu que a maioria dos mortos nesses conflitos eram homens, jovens, negros, pobres e periféricos. E mais, descobriu que os corpos e as cenas dos crimes eram sempre adulterados.

Policias da ROTA em ação

Policias da ROTA em ação

Nada novo no Brasil.

Mas quando o ator do filme brasileiro ‘Pixote, A Lei do Mais Fraco, foi morto dentro de casa e 4 jovens brancos de classe média foram executados dentro de um fusca, por policiais da ROTA, a coisa tomou outra proporção.

No final do livro, Caco traz uma lista dos maiores assassinos fardados da Rota, alguns deles, políticos. Alguns deles com mais de 400 mortes no CV. Alguns deles famosos como Conte Lopes.

Caco é jornalista e ficou famoso pelo programa na TV Globo: Profissão Reporter.

Caco Barcellos enfrentando a imprensa

Caco Barcellos enfrentando a imprensa

No livro Abusado, ele narra um episódio com o traficante Marcinho VP (protagonista da estória) que demonstra o poder da mídia: quando o Michael Jackson veio gravar um clipe no morro, Marcinho era o chefe do tráfico. Ele aceitou falar com os insistentes jornalistas e a coisa se seguiu assim:

- Você usa drogas? Jornalista pergunta.

- Só fumo um pouco de mato! Marcinho responde rindo.

Capa do livro Abusado O Dono do Morro Dona Marta de Caco Barcellos

Capa do livro Abusado O Dono do Morro Dona Marta de Caco Barcellos

As manchetes das revistas no dia seguinte diziam:

‘Só fumo e

mato um pouco’

e uma foto de Marcinho VP gargalhando.

Ele foi preso e queimado em um barril dentro da cadeia.

Alguns anos depois as fake news o ressuscitaram, para matar a reputação de mais uma vítima da polícia que mata no Brasil: Marielle Franco (parlamentar assassinada - ao que tudo indica - pela milícia do Rio de Janeiro). Inventaram que Marielle foi casada com Marcinho e envolvida com o Comando Vermelho.

Enfim, essa resenha inaugura uma vontade antiga de escrever sobre o que leio,

e serve é para me lembrar, como escritora, que algumas pequenas palavras inocentes fora de lugar podem ser fatais.

Neste momento acredito que ler é fundamental, segurar a mão dos outros também e ir em busca de verdade idem.

Que eu consiga seguir lendo e escrevendo.

Foto onde supostamente Marielle e Marcinho estão juntos

Foto onde supostamente Marielle e Marcinho estão juntos