As Malas

para Fernando Pessoa 

Toda noite o mesmo pesadelo

as malas e as coisas que não cabem nelas

o voo atrasado, cadê a passagem?

O corpo paralisado

as poças d´água de suor

e as malas por fazer

Queria dizer à mim mesma

⁃acorda, é um sonho

mas as malas, ah as malas!

não posso deixá-las
As pessoas assistem meu desespero

nada podem fazer

quem parte sou eu,

elas dormem também

Tenho pressa, ansiedade

nessa nave que já se vai

do que vou precisar?

Viver não é preciso

Arrumar as malas é preciso

Deus me disse, durante a fuga

⁃Arruma tuas coisas

ou foi o diabo?

eu, sem entender, fiquei eternamente

no departamento de bagagens

extraviadas

Para chegar ao destino final

que é sempre o mesmo

de novo e de novo:

o dia que insiste em nascer

e eu já desperto partida.

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