Miss solidão

A solidão tem sido minha grande companheira de viagem. E eu tava ignorando ela, e de repente me dei conta, que era muito pior fingir que ela não veio comigo, porque ela é chata pra caralho quando é ignorada. Parece um poodle invisível pedindo atenção o tempo todo. 

Quando aceitei que a gente tá viajando juntas mesmo, só eu e ela, decidi levá-la então pra conhecer Londres direito, essa cidade interessantíssima e cheia de atrações para solidões, afinal muita gente traz pra cá, ou conhece aqui mesmo. A minha solidão não está sozinha aqui. 

Levei ela na London Eye (a noite porque é muito mais bonita, de dia é só um monte de ferro) e contei rindo, a primeira vez que eu vi o Big Ben sem querer, completamente bêbada num taxi (um minicab-preto-retrô-lindo). Foi aquele soco no queixo de viagem, sabe? Aquela sensação única que dá ao ver uma coisa que você passou a vida vendo só em foto. Foi bom dividir essa sensação com alguém. 

Levei a solidão pros lugares que eu mais amo aqui e que só levaria quem eu amo também: o Regent’s Park, a Waterstones da Picadilly (5 andares de livros e mais livros - solidão ficou até meio de lado lá, nem lembrei que ela tava comigo), a Igreja de St. James, onde a Giu foi atropelada pela bike e desde então é um santuário de gratidão aos momentos difíceis, pois eles são oportunidades de grandes lições. Ensinei à solidão então, que a mão dos carros aqui é diferente da nossa e que por via das dúvidas, melhor olhar 3 vezes pra cada lado. O Tate Modern, ah o Tate Modern, levei a solidão pra ficar comigo calada só estando lá e depois fomos ver aquela vista estupidamente linda do café lá em cima. Ela consegue lugar fácil pra sentar, sempre. E lá em baixo, ficamos só andando pela Jubilee Walk, eu amo caminhar nas margens do Thames, ela andou do meu lado, apreciando cada ponte diferente que passava, em especial Tower Bridge que é maravilhosa. 

Levei a solidão comigo pra Library aqui perto de casa, lugar que eu vou toda semana e que me faz sentir parte do bairro e da cidade, só porque tenho carteirinha, ando por lá toda orgulhosa. Depois fomos comer a pizza do Domino’s que fica do lado e que foi a primeira coisa que eu comi quando cheguei aqui em Londres e até hoje continua sendo minha comida preferida, vai entender. A solidão entendeu e comeu comigo. 

Gosto mesmo de andar com ela de metrô, as vezes vamos só de um lado pro outro, sem destino. Contei pra ela tudo o que eu vi no documentário sobre a mega construção inovadora e fodástica que é o metrô daqui. É muito bom ter com quem conversar.

Ela começou a acompanhar comigo Call the Midwife, que é uma série maravilhosa e que tem sido uma ótima companhia também. Desde How I Met Your Mother que a gente não assistia uma série juntas. Não tenho coragem de ver Breaking Bad só com ela, não. 

Fomos eu e ela outro dia num pub que tocava música ao vivo e ficamos chapadas. Ela é ótima quando bebe. No dia seguinte é chata que nem a ressaca. 

Levei a solidão pro bairro do Sherlock e quero levar ela pra ver a plataforma 3/4 do Harry Potter e a Abbey Road que ainda não fui. Vamos tirar a foto clássica dos Beatles atravessando a rua. Somos as Fab Two. 

Fizemos planos, eu e ela, de irmos pra Stonehenge e Liverpool e decidimos juntas que isso precisa acontecer logo, porque já estamos ficando cansadas uma da outra e precisamos ver coisas novas. Fizemos também uma lista de museus de graça, porque ela adora arte e eu nem lembrava. 

Estou querendo levar ela pra balada, todo final de semana escolho umas 5 e ela não quer ir em nenhuma. Eu amo dançar, ela é toda dura. Mas ainda vou ensinar ela a se soltar. 

Desde que o rato e o cara esquisito chegaram aqui em casa eu estou com um pouco de medo. E ela tem uma capacidade incrível de atrair gente esquisita. Mó para-raio de maluco. Nessas horas é ruim sermos só nos duas. Mas damos conta. Ela me encorajou, disse que sou muito capaz de enfrentar essas situações, e que ela vai estar comigo sempre precisar. Estou aprendendo a ser corajosa pela gente. Mas nem eu nem ela temos coragem de matar o ratinho, acho que ele vai ficar com a gente. 

Mas sexta-feira fomos pra Convent Garden, eu tava afinzona de sair, me divertir. Ela não. Ela não quis entrar em nenhum pub, nem fazer amizades. E não me deixou entrar também. Parávamos na porta de um pub e ela me travava. Andamos toda West End, e não paramos em lugar nenhum. No fim compramos uma Guiness no mercadinho e fumamos um cigarro na calçada, ficou aquele silêncio esquisito. Fiquei com raiva dela esse dia. Voltamos pra casa, eu frustrada, ela gritando. Fui dormir e ela continuou fazendo barulho, a filha da puta. Não me deixou nem dormir direito. 

Ultimamente ela não tem me deixado escrever. Tem dias que ela atrapalha mesmo. E ela não é muito de falar inglês, prefere português e eu to querendo muito praticar, sabe? Mas ela insiste em ficar falando português e várias bostas. 

Agora ela tá até se tornando uma boa companheira, tá arriscando umas conversas e uns conselhos em inglês. Hoje ela fez uma playlist no Spotify das músicas no estilo dela e curtimos juntas. Foi um ótimo momento só nosso. 

A verdade é que na imensa maioria das vezes eu realmente prefiro estar com ela e mais ninguém. Ela me deixa fazer tudo o que eu quero, me deixa livre mesmo. Ela me entende. Ela tem aquele jeito só dela, de aceitar tudo o que eu sou. De amar quem eu sou. Coisa de amiga de infância. 

Não tenho muita vontade de ligar para os amigos de amigos que a galera me recomendou aqui, eu sei que eu deveria, mas acho que essa trip é minha e da solidão mesmo. 

E nós ainda vamos seguir viagem e passar bastante tempo juntas.. É bom que a gente aprenda mesmo a conviver. Quando estamos mal uma com a outra é uma grande merda, quando estamos bem é uma maravilha sem tamanho. Acho que toda amizade é assim mesmo. 

Agora ela deu pra querer ser chamada de solitude, viu essa palavra num livro do Tillich e disse que eu trouxe ela porque quis, que ela não se convidou, eu que chamei e insisti pra que ela viesse e que então não é solidão não, é solitude. Não é a dor de estar com ela e sim a glória de estar com ela. Vamos ver se o apelido pega.