Um monumento ao erro

Estive em Pisa. Estou andando pela Italia e Inglaterra há alguns meses e Pisa não seria muito impactante não fosse pelo casal incrível que nos recebeu lá e pelo particular fator de que essa cidade tem um monumento bem bonito e torto. Sim, torto. E é bem torto visto pessoalmente.

Olhei praquilo por um bom tempo e pensei que se as pessoas vem até aqui (basicamente do Japão) para visitar a torre, tirar fotos (basicamente empurrando a torre) e (no meu caso) admirar essa obra de arte é porque deve haver uma boa beleza na falha.

Se a torre fosse normal ela seria ainda sim linda (serei justa), mas não seria talvez tão famosa ou tão charmosa. Ou pelo menos pra mim não teria tido o impacto diferente do resto das obras feitas pelo homem com as quais já me deparei.

A natureza manja dessas coisas de falhas exuberantes e aleatoriedades incríveis. Mas o homem e seu ego inventaram, e estão até hoje perseguindo, a idiota perfeição. E uma coisa como a torre de Pisa fere uma série de conceitos humanos. E vê-la lá toda linda e toda torta e toda trabalhada na magnitude me fez aceitar um pouco mais minhas falhas.

Minha(s) tatuagem(ns) meio torta(s), minha ansiedade, meus vícios, minha agressividade, minha vaidade, minhas dúvidas, minha perna fina, meu pescoço muito grande, minha mente acelerada, meus óculos e minha galocha super cara que eu estava usando e não precisava ter comprado. Isso tudo com certeza faz parte da minha beleza.

Mas a diferença entre mim e a torre é que eu posso me erguer um pouco mais a cada dia, mas nunca, nunca serei perfeita. A perfeição é contrária a própria vida. Outras torres são perfeitas, não montanhas e cachoeiras e animais e flores. Se eu estou viva é porque estou imperfeita. Se estou imperfeita é porque posso melhorar. A torre está fadada a ser assim até que o tempo a consuma definitivamente. Eu posso esculpir coisas incríveis (e imperfeitas) de dentro pra fora. Sou produto da natureza e não da criação do homem.

E ergo dentro de mim um monumento às falhas, aos erros, e à beleza do que foge do perfeito, do padrão e do esperado. E virei visitar constantemente. Sem minhas falhas eu definitivamente não teria chegado até Pisa.

E a jornada não tem sido em busca da perfeição e sim da aceitação do imperfeito. Até nisso falho bastante. Mas vamos que vamos que em breve sigo viagem para a Islândia, onde a natureza provavelmente se empenhou bastante em ser (im)perfeita.

Essa foto é bem imperfeita, vamos por um momento contemplar essa cabeça que eu cliquei sem querer.

Essa foto é bem imperfeita, vamos por um momento contemplar essa cabeça que eu cliquei sem querer.