Não

Talvez seja porque não queremos magoar o outro, ser grosseiros, ruir a imagem perfeita que construímos, ou ainda porque podemos querer falar sim outro dia, mas o fato é que está cada vez mais difícil ouvir e falar um não sincero nas relações. 

Fulano marca um encontro e simplesmente desaparece. Sequer diz que não queria ir, não podia ir, ou arrumou companhia melhor (mesmo que seja a Netflix). Desconsiderando solenemente a programação (e expectativa) do outro. 

Duas pessoas se conhecem, se curtem, ficam, transam, ou não, bêbados, ou não, marcam um próximo date e de repente, alguém desaparece. Sem sinal, sem resposta, somente aquele visualizado azul e amargo depois do curti essa noite. 

E isso era só o começo. Podia ser bom, podia ser ruim, mas já nasce com cara de fim. Natimorto. 

O lance não tá indo pra frente, alguém começou a gostar de outro alguém, o namoro tá uma merda mesmo, e aí o que acontece? Nada. Um abismo. 

Ah, a gente marca. Não marca, gente, não marca. Todo mundo sabe, mas todo mundo ainda diz. 

Os amigos tão indo no bar e você tá zero afim? Você ou se arrasta ou inventa uma doença, ou trabalho, ou qualquer coisa. Inventa. 

Não sei o que foi feito das relações, mas elas estão cheias de desculpas pequenas que acumulam e acabam tomando uma proporção maior do que gostaríamos de admitir. Ou sequer perceber. 

Não custa dizer que não queria simplesmente. Que não quer mais, que nunca quis. Na vontade de ser legal, as pessoas acabam sendo imbecis.

Não sei quando foi que a gente se esqueceu que enganar outro ser humano é desvio de caráter e ignorar é no mínimo, falta de educação. 

E tudo bem mudar de ideia, é só avisar. Tudo muda, o ruim é ficar mudo. 

E aparentemente, pelo que entendi, construímos um dialeto em que o silêncio significa não. Que bobagem. Não é não. Silêncio é infinito. 

Prefiro um jamais, do que um sim que jamais vai se cumprir.

Se fôssemos impecáveis com nossas palavras e sentimentos as relações seriam mais leves.

O cara desaparece, mas você gosta dele, e quando ele ressurge, você releva. Releva para não ser a louca, a chata, e até pra não perder aquele bom momento de novo. Você quer aquilo. Simples. E isso vale pra caras também. 

Mas relevando, o problema vai ficando mais velado. 

A pessoa 1 mente pra ser perfeita, a pessoa 2 mente para ser perfeita e no fim acaba de se construir mais uma relação perfeitamente idiota. 

Cada um com medo de dizer um não. Não quero ir. Não curti ser ignorado.

Tudo pelas aparências. 

Mas por pior que a verdade pareça não é pior do que desaparecer. 

Te juro.

Não é a verdade doa a quem doer, porque a verdade nunca dói. 

O que dói é o silêncio. 

A imaginação dói.

A mentira dói. 

A espera dói pra caralho.

Dói a conta gotas. 

Enquanto você some, a pessoa cria na cabeça dela, cheia de baixa autoestima, um universo em que nunca será feliz, nunca será aceita, nunca será boa o suficiente. De novo? O que eu tenho de errado? Onde eu errei? Ou pior, ela acredita que se relacionar é isso. Sempre isso. 

E no fim, era só a agenda que não batia. 

Quando não dizemos não, estamos contribuindo para um mundo cheio de pessoas aparentemente super legais umas com as outras, mas absolutamente insensíveis. 

E enquanto a falha de comunicação imperar, não vamos evoluir como seres humanos. As relações não vão melhorar. E você, não vai ser mais legal por isso. 

Todo mundo gosta de falar sim. Sim é uma delícia. 

Mas quando não quer sair, não quer ficar, não quer ir, não quer, apenas silêncio. Fuga. 

Melhor falar.

Mesmo que seja aquela palavrinha que você não quer dizer.

Aquela simples, mas difícil.

Aquele não. 

Isso sim faz de você alguém que realmente se importa com o outro. 

E é libertador.

E o que poderia ser um nó na garganta, de ambos os lados, pode virar um belo laço.