Pedra na Rima

 

Existe pedra preciosa.

Pedra vulcânica. 

Pedra no sapato. 

Pedra de jogar em Geni. 

Pedra dura e água mole. 

Pedra noventa. 

Só enfrenta, quem aguenta. 

Pedra filosofal. 

Pedra sobre pedra. 

E existe a que é palavra. 

Palavra presa. 

Calcificada.

A calosidade, que vai encorpando dentro da gente. 

Até que um dia vira pedra no rim.

E essa, essa dói pra sair. 

Cada uma, uma coisa que eu não disse.

Um letra encalacrada que o mundo não visse. 

Uma lasca dessas arestas

Rasgando bexiga e uretra.

Jogando sangue na cerâmica.

Caindo eu mesma no chão.

Cada pedra é uma vogal.

Um gemido que foi pra dentro.

Cada rochedo do seu jeito. 

Cada limbo

escorregando pra fora.

Cada urrada de dor.

Cada sentimento que não viu a cor do dia.

Cada letrinha miúda

dessa sopa de urina.

Cada atrito 

como um granito se agarrando nas paredes

de uma caneta.

A palavra que não sai,

a criptografia da angústia.

Cada pedra no rim

um grito

de socorro

inútil. 

Daquilo que não morro

me rasga

por dentro.

Cada pedra no rim

é um substantivo

que se forma em silêncio

abraçado pelo organismo

encontrando um lugar quente

pra se esconder

endurecer.

Nada de pérolas,

essa pedra não vale nada.

Cada palavra não dita

vira uma maldita areia

que sai por onde não entra

num espaço de uma veia.

Só morfina

passa a dor

das palavras que meu corpo

formou.

Não tem remédio

nem chá de quebra pedra

que dê jeito

na saliência

do verbo nunca escrito.

Só o adjetivo

é suficientemente rijo

se não sai em letra, 

sai no mijo.