A revolução de papel

Estamos passando por uma revolução gigantesca e um pouco atrapalhada. Como toda revolução é, suponho. E para mim, essa revolução se trata basicamente de questionar qual é o papel das coisas nas coisas. 

O papel da mulher, da gorda, da piada, da alimentação, dos e das trans, dos gays, das lésbicas, dos negros, do governo, da mídia, do capitalismo, da sociedade em si, do consumo, do trabalho, da escola, da família, do aborto, da legalização, da igreja, da internet, das marcas, das fronteiras, enfim - tentando ser ultra inclusiva - de tudo um tudo.

Apelidei essa revolução então, de revolução de papel, dá licença. Acho muito interessante olhar as coisas pelo viés evocativo de: qual o meu papel nisso tudo?

Isso é uma reflexão longa, dolorida e corajosa. Mas necessária num nível tão urgente que já não é mais possível ficarmos no papel de coitadinhos. 

É uma revolução recente - que na verdade vem malhada antes de eu nascer e que se repete com caras diferentes nesse gif animado chamado vida, mas que está atingindo um dos picos transitórios agora. O que me ajuda a cunhar (caralhos não pensei que cunhar pode se transformar num péssimo verbo se associado ao Cunha, tipo, ce tá sendo intolerante, homofóbico, transfóbico, ladrão, mau caráter etc, ce tá cunhando), anyway, tudo isso me ajuda a reforçar o termo revolução de papel, porque to pensando aqui que é aniversário de pouco tempo dessa união recente entre nossa reflexão e nosso poder argumentativo ca internet, coisas que estão dando cara à essa revolução. Que by the way, será sim televisionada, mas também será tuitada, mas principalmente sentida no interior de cada um, porque os papeis dos veículos estão mudando. Você é um veículo. 

Mas existe um grande efeito colateral indesejado dessa revolução neném: um monte de bosta saída das profundezas satânicas. 

Em momentos de revolução - absolutamente necessários pra evolução, veja, estou considerando que já sabemos disso -  a coisa fica toda emerdeada, e isso serve pra vida pessoal e de um país e um ou mais planetas, pois a vida pública-coletiva-intergalática é apenas um reflexo de cada interior de cada ser humano.

Eu sei que tem coisas acontecendo que reviram o estômago, os defuntos, os olhos. Mas é preciso revirar todo o entulho do quartinho da bagunça pra poder começar a limpeza. Quando limpamos o porão assustador da casa da minha vó uma vez, achamos uma caixa de baratas vivas, outra com coco de rato até a tampa e meu primeiro videogame: um atari velho que tava lá esquecido. Ou seja: melhor pior dia. É meio isso. 

A gente tá vendo notícias que parecem retrocesso, eu sei, mas eu sou uma Pollyanna de carteira e quero sim ver o lado positivo dessa palhaçada toda. 

E o que eu consegui pensar e sentir e escrever é que não, não é um retrocesso, é só o efeito colateral da mudança. A mudança de papeis. 

Quando a gente vê essas atrocidades, não podemos querer star morta, temos que querer estar vivão e viver isso tudo. E desempenhar nosso papel. 

O barato é loco e o processo é lento, mas a coisa ta andando pra frente ou pra algum lugar que a gente vai saber quando chegar (espero desesperadamente que não seja muito pra direita) porque o caminho que a gente tomar como humanidade é apenas o desejo da maioria. E a maioria é feita de cada pessoinha. Por isso, é muito importante que você entenda qual o seu papel individual. Ele que vai empurrar um pouco pra onde a gente vai como um todo. 

E toda vez que alguma coisa tá mudando de direção, a galera que tá, ou que acha que tá na frente (ou na direita, cof), a galera que ama o passado e que não vê, faz um esforço descomunal pra não perder a poli, o trono, o poder, porque eles tem medo de perder a vida deles com isso, o ego tem dessas manobras, E não existe nós e eles aliás, tamo tudo junto rapeize, sinto lhes informar. Invariavelmente a mudança vai acontecer, pro bem ou pro mal, porque o novo sempre vem. Advindo das coisas mais surreais possíveis. 

Roma ruiu sob a paz e a Alemanha se ergueu pela guerra, ou seja, a mudança não tem lógica, ela tem necessidades. Essa Alemanha aí que foi palco de uns dos maiores terrores que a humanidade já viu, hoje é um dos países que está puxando a nova sociedade baseada na colaboração e pode mudar a cara do nosso capitalismo e consequentemente de quase tudo (amém). O lance é: pra ter mudança, precisa ter merda e precisa ser muita merda e precisa feder muito, porque senão a gente deixa pra limpar depois. 

Não estou querendo dizer: ah ainda bem que tivemos o nazismo, então, e que estamos matando nossos semelhantes ainda hoje só por ser diferente, claro que não porra, mas isso aconteceu e está acontecendo e eu prefiro acreditar que é por alguma razão: não podemos mudar o passado mas podemos ressignifica-lo. E tá na hora. 

A oportunidade que a treva traz é única. Estamos podendo acessar toda a nossa podridão, escuridão, maldade, fanatismo, fobias, e tudo de ruim que pensamos e fazemos. E isso é o maior gatilho de mudança interno e logo, externo que existe. 

Só quando colocamos luz no canto mais escuro e fedorento é que podemos pegar um pano, uma cândida, tampar o nariz e limpar essa caralha. Onde tem luz tem menos medo, mas onde tem escuro tem as respostas. Tem liberdade. Quando você entende o movimento sórdido que está por trás de um comportamento, você pode mudar o sentimento.  

Olhar nossa sombra faz com a gente consiga acessar o porque exato de causamos tanto mal ao outro. Tá tudo dentro da gente, guardado em algum trauma, algum passado distante, alguma lembrança sofrida, alguma má interpretação. Algum abuso, vingança. E estamos tendo a oportunidade de olharmos escancaradamente isso em um nível coletivo. 

Tudo o que se expõe, se mostra pra se juntar ao que pertence e seguir o seu caminho. E meio que tudo que existe tende a seguir o caminho da luz. Parece um movimento bem normal e intuitivo do universo. 

Pensa: a gente tarra num porão, a porta abriu e a gente tá correno. Desamparados atrás da nossa galera. Ódio vai andar com ódio, amor vai andar com amor. E eventualmente eles vão se esbarrar e vai dar merda. Mas quando a gente entender que amor e ódio é tudo habitante do mesmo lugar procurando a luz - amor mais perto, ódio mais longe - a gente pode ajudar uns aos outros. 

É importante nesse momento que o amor não queira usar do ódio pra se fazer entender. Amor anda com perdão, consciência, gratidão, livre arbítrio e aceitação. Quem pegar o papel pra limpar não pode julgar a merda. Julgamento anda com ódio. Amor perdoa quem não sabe o que ta cagando pela boca. Você está engrossando a galera do amor ou do ódio? 

Okay, pra concluir o textão, só queria dizer que eu acho que o papel da revolução no final de tudo é fazer com que cada um olhe o que repudia em volta e depois para si mesmo e pense: qual meu papel nessa merda toda que ta acontecendo?

Opção a) papel higiênico

Opção b) papel de trouxa

Cada um tem um papel a desempenhar. Limpar ou sujar? Fazer papelão ou cartaz? Papel principal ou coadjuvante? E você pode escolher. Its up to you baby e não tem papel certo ou errado, tem consequências.