A superfície é mais perigosa que a profundidade

Se aventurar em águas profundas parece aterrorizante, mas permanecer na superfície é o que me dá mais medo. 

O raso é um lugar seguro, conhecido, visível e absolutamente confortável. 

E isso sim é um perigo enorme.

Quando você coloca luz nas trevas mais profundas, pouca coisa que resta ainda dá pavor. 

Os seres abissais não são tão mortíferos quanto as espécies que se encontram na borda das coisas. No primeiro mergulho.

Estar disposto a apneia em baixo de águas frias e escuras é o que faz com que todo o resto deixe de ser paralisante. 

Coisas rasas, essas sim me dão pânico.

Não saber de que buraco vem os meus demônios, isso sim me apavora. 

Não buscar informação e acreditar só naquilo que aparece no meu feed das redes sociais, isso sim é motivo de fobia.

Emitir opinião só sabendo uma pequena parte da história, julgar, apontar dedo, no quentinho e calmo da costa, isso sim é tenebroso.

Prefiro o desconfortável fundo do que a confortável beira.

E não existe nada que o assuste se você olhar de perto, com calma, com profundidade. 

Estar sempre na superfície é uma grande perda de tempo. É ficar à deriva.

Nas águas de baixo, navegar é preciso.

Viver não é. Nunca fui, nunca será.

Mas navegar em águas rasas, além de impreciso é perigoso.  

Sempre que puder aprofunde-se. Mergulhe a cabeça, não molhe só os pulsos. Vá com tudo, vá pra baixo, vá mais fundo. 

A alegria, a paz, o silêncio, o amor verdadeiro e a luz que vem de dentro, estão todas imersas. 

Se você ficar apenas aonde parece tranquilo, estará para sempre afundado em comodismo. 

E olhando de cima, tudo em baixo parece pior do que realmente é quando se encara face a face. 

A superfície é cheia de seres bizarros, a profundidade é repleta de consciência. 

Não tenha medo, o perigo está em pessoas rasas. Relacionamentos rasos. Carreiras rasas. Piadas rasas. Mentes rasas. 

Quem está afundando está despertando.

Quem está raso está boiando.