DR.

não importa a causa, nem o sintoma, o tratamento recomendado para os meus males é sempre o mesmo: escrever


Mente

na espera da terapia

eu espero tudo.

espremo as pernas

pra passar por uma estreita

sala de espera

no escuro. 

que o mundo pare e me espere.

que eu nunca tenha que esperar

como as esperanças 

que nunca morrem

nem descansam.

na espreita da terapia

eu desperto

pra dentro, pra perto.

na porta da terapia

me pego

esperando algum tipo de verso.

na porta da poesia eu me encontro

de pé ou deitada

no divã. 

e me apego

a qualquer tipo de vã filosofia

e me pego pensando

enquanto espero

nessa sala de estar 

onde as palavras estão

me esperando

morando dentro do peito.

e aponto

o defeito

de cada palavra escrita

falada

não dita

e que só faz sentido

na espera

que é toda 

pressa

de fazer algo direito.

na espera da terapia

eu me encontro 

perdida

escolhendo cada palavra

como feijão

que vai virar um broto

plantado no algodão.

e as vezes as palavras brotam 

outras não. 

Tosse

se a tosse

fosse

se você viesse

se a tosse

passasse

se você passasse

por aqui

se a tosse

falasse

se a tosse

pudesse

sair

se eu falasse

se eu fosse

se eu pudesse

eu seria tudo

o que sou

só que sem

essa tosse

mas a tosse

tem posse

de mim

tempera

o que digo

faço

ou foço

a tosse?

é só o som

do silêncio

no fundo do poço.

eu tuço

tu fostes

 

Esmagamento

A dor de ser esmagado é imperceptível. 

Vem fantasiada de um novo amor meio turbulento, meio ciumento, as vezes até bom.

Vem com cara de um emprego perfeito mas cheio de cobranças.

Ou de um emprego ruim mesmo.

A dor de ser esmagado, começa com uma tosse a noite e depois vira asma.

Depois vira uma torcicolo crônica.

Depois vira aquela-doença-que-não-falamos.

E no caminho para o trabalho, parece que você está se arrastando. 

Que tem um elefante em cima de você quando acorda. Mas não tem nada em cima de você.

É só o esmagamento indolor e silencioso. Que silencia o snooze e levanta. 

As vezes são pessoas que você ama, mas que parecem estar sentadas sobre seus ombros. Até o amor esmaga. 

Aquela torcicolo que não passa. 

Dói o joelho, dói a coluna, dói por dentro. 

O celular que não para de apitar, a agenda que nunca alivia. 

As reuniões de trabalho, as reuniões de família, os eventos do facebook, os eventos de uma vida normal. 

Aquele filme que você queria ver mas não viu, aquela comida saudável que você queria cozinhar, mas comeu pizza. 

Quando você não tem tempo de depilar, fazer as unhas, a barba ou beber com seus amigos numa tarde de outono de sexta.

Quando não tem dinheiro pra viajar pelo mundo. 

Porque a vida está uma loucura.

Você está esmagado e não sabe.

Porque não dói assim de cara.

Mas você sabe,

todo o peso do mundo está sobre você.

Todo o peso dos sonhos que você não realiza.

Todo o peso das coisas que você se apega e não deixa ir.

Todo o peso da sua mente, sobre o seu corpo.

Todo o peso que você coloca de manhã e não tira pra dormir. 

Ser esmagado não dói. Por isso a gente não trata.

Pra torcicolo se toma remédio. 

Pra esmagamento se toma coragem.

Pedra na rima

Existe pedra preciosa.

Pedra vulcânica.

Pedra no sapato.

Pedra de jogar em Geni.

Pedra dura e água mole.

Pedra noventa.

Só enfrenta, quem aguenta.

Pedra filosofal.

Pedra sobre pedra.

E existe a que é palavra.

Palavra presa.

Calcificada.    

A calosidade, que vai encorpando dentro da gente.

Até que um dia vira pedra no rim.

E essa, essa doi pra sair.

Cada uma, uma coisa que eu não disse.

Um letra encalacrada que o mundo não visse.

Uma lasca dessas arestas

Rasgando bexiga e uretra.

Jogando sangue na cerâmica.

Caindo eu mesma no chão.

Cada pedra é uma vogal.

Um gemido que foi pra dentro.

Cada rochedo do seu jeito.

Cada limbo

escorregando pra fora.

Cada urrada de dor.

Cada sentimento que não viu a cor do dia.

Cada letrinha miúda

dessa sopa de urina.

Cada atrito

como um granito se agarrando nas paredes

de uma caneta.

A palavra que não sai,

a criptografia da angústia.

Cada pedra no rim

um grito

de socorro

inútil.

Daquilo que não morro

me rasga

por dentro.

Cada pedra no rim

é um substantivo

que se forma em silêncio

abraçado pelo organismo

encontrando um lugar quente

pra se esconder

endurecer.

Nada de pérolas,

essa pedra não vale nada.

Cada palavra não dita

vira uma maldita areia

que sai por onde não entra

num espaço de uma veia.

Só morfina

passa a dor

das palavras que meu corpo

formou.

Não tem remédio

nem chá de quebra pedra

que dê jeito

na saliência

do verbo nunca escrito.

Só o adjetivo

é suficientemente rijo

se não sai em letra,

sai no mijo.